Complicado para mim é entender os humanos… O tempo é fácil, reconfortante e, de certa forma, completo. A lua está sempre lá, com toda sua beleza e sabedoria e nunca, nunca se torna pedante. O sol está sempre lá, traz sorrisos a muitas pessoas, calor e leva embora a escuridão. O vento está sempre lá, faz carinho nos corações solitários e traz a vontade de estar junto. O frio está sempre lá, me lembrando do quão bom é estar só e sempre lembrando o quão poderoso é o tempo. Mas os humanos… os humanos nem sempre estão lá, muitos deles são imprevisíveis de mais e pouco confiáveis. Gosto do tempo, pois consigo entende-lo, mas não gosto dos humanos por não poder confiar.
(Solferino.Doentio)
O cheiro indicava que a chuva estava por vir ou, talvez, as escassas gotas que do céu caiam e, pouco a pouco, molhavam monumentos e praças que, a esta hora, já vazias estavam. Mirando o publico de um pequeno evento bobo, correr em direção a abrigos improvisados, eu refleti sobre o quão a chuva era controversa. A mim, calmaria trazia e em outros, desesperos surgiam. Sorrindo ao me imaginar só, diante do povo a correr, eu parrei e deixei a chuva tomar conta de todo meu corpo. A chuva, já fora de controle a esta altura, tomava com voracidade as vielas e ralos sujos da cidade submersa em sofrimento. Eu, ali, sozinho, sorria para a chuva, que agora banhava todo meu ser com gotas doloridas de realidade. E da mesma forma repentina que surgiu, foi-se. A cidade, a sua rotina aos poucos voltara. O publico voltou ao evento e dessa vez em menor numero. Já eu, suspirando, pus-me novamente a andar… a andar… andar… andar.
Querido Alguém.
Então, como está ? Bem, eu espero. Mas na verdade, eu não sei bem como estou, por isso não posso dizer que me sinto bem em estar escrevendo está carta. Disseram-me “escreva uma carta feliz, que transmita amor e paixão”, mas você sabe que paixão e amor não são coisas que costumam estar em mim. Eu só precisava lhe dizer que me sinto só e que está carta é sobre ninguém especifico e também uma forma de contar para ti que ninguém está por perto.
Ninguém me faz bem e me traz sorrisos distorcidos. Eu pergunto hoje se poderia ama-lo e ele disse que ninguém ama de verdade. Agora eu me sinto completo, pois ninguém me ama. Decidi lhe mandar essa carta, para lhe dizer que estou feliz com ninguém, que ninguém me completa e alguém, você, já não é mais necessário. Eu estou feliz e graças a uma conversa que ouvi um dia desses em um parque.
Um menino falava ao telefone e ele parecia estar chorando e você sabe como gosto de lágrimas. Eu, sem querer, o ouvi dizendo “ninguém consegue amar a todos, ninguém consegue ser feliz para sempre, ninguém consegue ser o melhor em tudo, ninguém consegue ser perfeito, ninguém consegue ser verdadeiro com tudo, ninguém consegue ser divertido o tempo todo, ninguém consegue tudo. Pare de esperar de alguém o que ninguém consegue!” Cansei de esperar por alguém. Estou feliz com ninguém, pois ninguém se preocupa comigo de verdade…
(Solferino.Doentio e InocenteSoliloquio) - Cartas Para Alguém Sobre Ninguém.

A prisão está à frente e nada parece mudar o caminho a seguir. Respirando fundo e com os pés mecanicamente presos, eu sigo até onde o mundo me leva. Eu sigo até o fim da ponte. Suspirando, eu encontro a felicidade e, o que parece ser real, torna-se ilusório com apenas um toque. Talvez eu esteja errado em sentar e assistir a tudo se arrumar. Isso não é uma opção. Mas eu estou cansado, e ser levado sem questionar parece ser o certo a fazer. A ilusão me leva ao fim do caminho, até a prisão. E hoje aprisionado, a ilusão se mostra feliz com o resultado do seu feito.
Dessa vez não haverá lágrimas… Será diferente. O sofrimento e a dor estão proibidos de se instalar no meu sistema nervoso. Dessa vez, quando sentir a tristeza vindo, andarei diante dela, com olhos de coragem, mesmo que a ressaca me torne fraco e cansado. Meus olhos, antes duvidosos, nesse dia estarão dispostos a lutar. Um dia, diante de tanta tristeza, eu vou sorrir e seguir em frente. Olhando para o futuro, eu penso em quando a tristeza virá novamente e se, dessa vez, eu ainda manterei meus olhos de ressaca e se esses mesmo olhos irão resistir.
Uma certa vez, enquanto olhávamos a lua, em uma noite silenciosa, você me perguntou se seria difícil. Eu, depois de suspirar pela quinta vez, respondi que seria se você assim quisesse. Você disse-me, sorrindo após pensar um pouco, que queria que fosse fácil, então seria fácil. Eu, ainda olhando para a noite, quebrei seu sorriso quando disse que mesmo assim poderia ser difícil, pois tudo dependia de dois. Um tempo depois, cerca de 3 minutos em silencio, você riu e eu perguntei o motivo do riso. Você, como sua grande inteligencia, me disse que mesmo que fosse difícil, eu havia dito que dependia de dois, então seriamos sempre dois. Eu te olhei e sorrir… Nós olhamos a noite abraçado após isso.
Hoje, sentado em um canto e comendo um dos intermináveis e viciantes salgadinhos, decidi escrever, mas porque essa decisão me parece tão errada e desconexa agora que me ponho aqui, sentando de diante de umas das bilhões de formas de se por em ação a escrita? Talvez eu esteja tão perdido que a palavras tenham se perdido junto com a mente ou elas, como todos, decidiram me deixar sozinho. Não sei se foi certo pensar em escrever ou muito menos em me por diante da provação, mas me sinto incompleto no momento e a escrita, que tanto me escapa, não deseja me completar como sempre fez. Suspirando aqui pela quinta vez, eu ainda me pergunto porque decidi escrever. Não me pareceu um crime ou tão difícil quando decidi faze-lo. Fechando os olhos pela nona vez, eu respiro fundo e penso em desistir, mas porque desistir me parece tão mais errado do que tentar o que não pretendo conseguir. Pois sei que minha mente não me deixa escrever porque eu não me sinto confortável me expondo hoje. Talvez eu não queria escrever, mas o sentimento de escrita não me foge, pois mesmo me fazendo completo e compreendido, hoje as palavras fugiram de mim, mas o sentimento de escrita nunca me deixa.